Cantiga da laranjeira

Cantemos agora, desconhecidos,
sob estas laranjeiras floridas!
E quem for sombra, como somos sombras,
se amar errante,
sob estas laranjeiras floridas
virá cantar

Cantemos agora, desconhecidos,
sob estes ramos  oferecidos,
E quem se reunir, como nós reunidos,
se amar errante,
sob estes ramos oferecidos
virá cantar

Cantemos agora, desconhecidos,
sob estas laranjas cantemo-nos,
E quem quiser, como nós sim queremos,
se amar amante
sob estes ramos de esquecidos,
virá cantar

II

Bebamos agora, desconhecidos,
sob estes toldos ensolarados
E quem for sombra, como somos sombras,
se amar errante,
sob estes toldos ensolarados
virá cantar

Bebamos agora, desconhecidos,
sobre estas mesas oferecidas,
E quem se reunir, como nós reunidos,
se amar errante,
Nessas três mesas oferecidas
virá cantar

Cantemos agora, desconhecidos,
nestas três mesas cantemo-nos ,
E quem quiser, como nós sim queremos,
se amar amante
nestes cantos de nós esquecidos,
virá cantar

 

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Passagem da chuva

É chuva. Sinto que é chuva
não porque a água já descesse
(bem me importa a umidade)
mas porque aqui dentro de casa,
nos fundos de casa, a porta
bateu, o vento fez-se sombra.
Sinto que agora tudo é chuva,
que escorremos através da grei
e em chuva nos dissolvemos.
Sinto que é chuva nos pastos,
no asfalto, na telha.
E que adianta um guarda-chuva?
E que adianta um isqueiro?
É chuva no meu amigo.
É chuva no carro do vizinho.
É chuva nessa minha cabeça grande.
É chuva, não é noite, é chuva
de tédio rarefeito e talvez na praia.
Não é saudade, nem nada, é chuva,
é simplesmente a chuva.

Mas salve, molhado e com calor!
Salve, essa micareta que surge!
Os corpos saltam do sono,
o mundo se decompõe!
Que bobo na bicicleta!
Fruir: seja como for.
A panela revela o feijão
Cantar: mesmo sem poesia.
De novo se espalhar: os mangues,
as ondas, as raízes sem raiz.
Tudo que na chuva ganhamos
se nos molha outra vez.
Desvio, temo o mármore!
Saber que ainda há florestas,
alagados, palavras; que a terra
prossegue seu giro, e o tempo
não existe; só nos diluímos.
Beber o gosto da tarde!
Cinzenta tempestade, embriagado,
viver não é essencial!

Gerúndio

Seria possível falar movimento com esta língua dos pronomes e da divisão do tempo?

Beijando

a boca

beijando

a boca beijando falando  desentendendo

beijando

beijando não tinham o que falando distanciavam distanciando o que sempre dispersando podiam juntando em se beijando

 

beijando

Se isto fosse um manifesto

Contra as utopias da boa ordem de amanhã a anti-utopia da ordem impossível.

Contra as teologias da boa morte e da vida eterna a anti-teologia da impossibilidade de morrer e da impossibilidade de permanecer o mesmo.

Contra o ego a alteridade.

Contra os funcionários da ilusão – presente e futura – uma pragmática da imaginação.

Contra a divisão, o ajustamento e a adaptação devolver a multiplicação, a distinção e a exceção.

Contra o tudo e o nada a invenção.

Contra os manifestos o anti-manisfesto da emergência de todos os manifestos.

(Se estivéssemos em tempo de manifestos eu escreveria esse)

Cena 4

Em primeiro plano a placa do boteco anunciando: “PF + suco de laranja 10 reais”. Entro. Me sento. Peço o PF, mas quero água com gás, gelo e limão espremido. Não tem água com gás. Fico com o suco. Tava muito doce. Sonho com a água com gás, gelo e limão espremido. A poesia é a água com gás, gelo e limão espremido… Que beleza é pedir uma água com gás, gelo e limão espremido para acompanhar o PF! O ovo frito era o requinte.

Cena 3

… pegar o ônibus me pareceu mais interessante que pegar o metrô porque eu poderia ficar mais tempo me distraindo com as ruas. Pelo metrô há muito pouco que ver. Não sei bem se era exatamente ver que queria, mas decidi voltar do trabalho para casa de ônibus.

As ruas pelas quais passava não eram tão diferentes assim das de outras cidades em que estive. Poucas, mas distantes entre si. Eu nunca viajei, apenas fui empurrado daqui pra lá. Sempre me espantei com as igrejas, os palácios, as casas de governo, os bancos. Prédios estranhos, impõem suas formas abruptas sobre os vivos… Por isso a graça da cidade é a rua. O prédio tem graça pra gente ver da rua, ou no horizonte.

Certamente me distraía, mas não de qualquer modo. Porém, de fato, não prestava atenção. No mais das vezes prestar atenção à cidade é o que menos interessa. Afinal, por que deveria interessar?

                     prestar atenção

                                            talvez seja a atividade mais enfadonha, impertinente e impossível quando se trata de motivá-la voluntariamente.

             prestar atenção

                                  prestar atenção

                                                                                                                                                                                                                                                                      prestar atenção ao que está presente nunca foi condição para aquilo que se choca e gruda por gigantesca afinidade.

Engraçado. Dá-se sempre um jeito de ficar junto. Não é à toa que grande parte da galera da cidade não tira o olho do celular quando passa de trem ou ônibus. Tudo anuncia a fala de alguém ausente. E quem sente não perde tempo. Os encontros já estão todos marcados.

Da janela, enquanto eu estava parado no farol, vi como alguém lá fora olhava para o celular ao mesmo tempo que erguia a cabeça como se procurasse o encontro marcado.

Olhava o celular

erguia a cabeça

olhava o celular

erguia a cabeça

 

um ambulante em frente

– Não, não quero comprar nada… Não, não …

deixou o ambulante para trás

Mais

um

desvio:

 

– Me atrasei muito?

– Não muito, eu também acabei de chegar, estava tudo parado pela rua.