Cena 8

Eu tinha acabado de compor uma canção. Era a primeira. Já havia meses que eu tentava unir uma harmonia feita no violão e um poema. Eu tinha 15 anos, e me acompanhava uma sequência de frustrações. Escrevia poemas – as letras – pensando em como compor a harmonia e chegar, por fim, à canção, que demorava.

É difícil chegar no instante em que a canção aparece; em que eu mesmo não sentisse vergonha de cantar.

Eu vinha de intensos anos, durante a adolescência, de ouvir os cantores e bandas prediletas. Tinha feito crescer o repertório, pesquisava cancionistas desconhecidos – antigos e novos. Eu queria chegar naquele lugar em que eu me tornaria capaz da canção.

Aos quinze anos, então, eu estava sentado na minha cama. Finalmente os acordes, todos trabalhados com alguma inocência, mas com cuidado e intenção, passavam a acompanhar a letra; eu estava cantando uma composição que não existia ainda; passava a existir naquele momento. Eu acabara de a inventar.

Nesse instante eu não cabia em mim. Fiquei imensamente alegre. Corri para o salão em que minha tia costurava. Era a única que poderia ouvir a minha criação naquele instante.

Sentei perto dela para tocar. Disse a ela que tocaria uma composição minha. Ela parou brevemente a costura, baixou a armação dos óculos até a ponta do nariz e me olhou. Eu comecei a tocar. Fui até o final, emocionado. Sabia que surpreenderia.

Terminei de mostrar a canção. Olhei para ela.

Ela sorriu. Aquele riso meio amarelo. Sem nenhum entusiasmo e repleta de desatenção me disse:

– Musiquinha de uma nota, filho?

Eu respondi:

– Não, a música não tem apenas uma nota.

Voltei para o quarto.

 

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Cena 7

No ponto de ônibus, comigo, havia duas moças que trabalham na recepção do hotelzinho, logo em frente. Elas fazem escala e saem por volta das 6 horas da manhã. Todas as vezes nós conversamos um pouco. Aquela conversa de ponto de ônibus. Já sei que elas odeiam chegar a noite para trabalhar. Reclamam de assalto e tudo o mais. Elas preferem acessar o prédio pela parte de trás pra evitar o estresse com os “nóias” que ficam em frente ao ponto durante a noite. 

– Bom dia! Bom dia! (cumprimentei).
– Bom dia!
– E agora essas eleições hein? (perguntaram) Já sabe em quem vai votar?
– Sei nada! (respondi)
– Pois então, nem eu. Na verdade, eu nem vou votar faz tempo. A última vez que eu fui votar foi pra arrumar um emprego, eu tinha que estar em dia. Ai fui e regularizei. Já tinha mais de 14 e 90 pra eu pagar, de tanto que eu não vou votar, cê acredita?.. São uns 2 reais e pouquinho, né? Quando cê num vota? Acho que é isso… Paguei e ai fui votar. Já devo estar devendo por ai de novo. Votar, eu? Vô nada.

A colega do lado ria.

Cena 6

De longe eu via seus passos. Vinham rápidos em minha direção. Nós encontramos os sorrisos e meu coração batia mais forte. Eu pensei em muita coisa, em quase tudo. Fui seguindo ao seu encontro, nós nos aproximamos. Estávamos já lado a lado. Eu acenei, você também.

Ainda chovia uma garoa fina, não se viam muitas pombas. Havia a algazarra e os barulhos de sempre na cidade. E comecei a conceber um modo, talvez, de não prestar atenção nas coisas; de esquecer de sonhar ao que poderia lhe dizer.

Um jeito de não esperar.

Cena 5

O ônibus seguiu. Chovia uma garoa fina. Eis que num rompante, uma série de gritos me recompuseram em mim. Alguém gritava ali dentro, no meio daquele monte de gente. Parecia um delírio. Me mantive em silêncio, mas um pouco mais curioso. Eu olhava para o lado e outro olhar me fitava e ambos os olhares voltávamos ao delirante. Ouvia-se coisas sem nexo e às vezes violentas. A princípio, as palavras não pareciam se dirigir a ninguém. O ônibus voltou a parar no ponto seguinte. Abriu a porta. Os gritos, então, desceram.

Estávamos todos em silêncio. Os olhares voltavam a se entrecruzar. Cada um em seu lugar. Alguns em pé e outros sentados. Franzir de testa atrás de mim. À frente dois sorrisos, um respondendo ao outro, e dar de ombros. Ao meu lado, na poltrona, uma mirada tímida, pelo canto dos óculos. Rapidamente os olhos voltaram a ler. No retrovisor, a cima do para-brisa, o movimentar rápido de um rosto que tentava entender o que ocorria. Ouve-se três batidas na caixa de troco ao lado da catraca. As portas fecham. O trajeto continua.

Cantiga da laranjeira

Cantemos agora, desconhecidos,
sob estas laranjeiras floridas!
E quem for sombra, como somos sombras,
se amar errante,
sob estas laranjeiras floridas
virá cantar

Cantemos agora, desconhecidos,
sob estes ramos  oferecidos,
E quem se reunir, como nós reunidos,
se amar errante,
sob estes ramos oferecidos
virá cantar

Cantemos agora, desconhecidos,
sob estas laranjas cantemo-nos,
E quem quiser, como nós sim queremos,
se amar amante
sob estes ramos de esquecidos,
virá cantar

II

Bebamos agora, desconhecidos,
sob estes toldos ensolarados
E quem for sombra, como somos sombras,
se amar errante,
sob estes toldos ensolarados
virá cantar

Bebamos agora, desconhecidos,
sobre estas mesas oferecidas,
E quem se reunir, como nós reunidos,
se amar errante,
Nessas três mesas oferecidas
virá cantar

Cantemos agora, desconhecidos,
nestas três mesas cantemo-nos ,
E quem quiser, como nós sim queremos,
se amar amante
nestes cantos de nós esquecidos,
virá cantar

 

Passagem da chuva

É chuva. Sinto que é chuva
não porque a água já descesse
(bem me importa a umidade)
mas porque aqui dentro de casa,
nos fundos de casa, a porta
bateu, o vento fez-se sombra.
Sinto que agora tudo é chuva,
que escorremos através da grei
e em chuva nos dissolvemos.
Sinto que é chuva nos pastos,
no asfalto, na telha.
E que adianta um guarda-chuva?
E que adianta um isqueiro?
É chuva no meu amigo.
É chuva no carro do vizinho.
É chuva nessa minha cabeça grande.
É chuva, não é noite, é chuva
de tédio rarefeito e talvez na praia.
Não é saudade, nem nada, é chuva,
é simplesmente a chuva.

Mas salve, molhado e com calor!
Salve, essa micareta que surge!
Os corpos saltam do sono,
o mundo se decompõe!
Que bobo na bicicleta!
Fruir: seja como for.
A panela revela o feijão
Cantar: mesmo sem poesia.
De novo se espalhar: os mangues,
as ondas, as raízes sem raiz.
Tudo que na chuva ganhamos
se nos molha outra vez.
Desvio, temo o mármore!
Saber que ainda há florestas,
alagados, palavras; que a terra
prossegue seu giro, e o tempo
não existe; só nos diluímos.
Beber o gosto da tarde!
Cinzenta tempestade, embriagado,
viver não é essencial!